"Lembro-me de, às vezes, ir de barco com o meu pai que era pescador. Tinha cinco, seis, sete anos, e lembro-me de olhar para o fundo do mar ou para a costa, e de estar completamente extasiado com a poesia do mundo. Essa contemplação espontânea acabou por me dar uma capacidade de perceber o grande que habita o mínimo, que habita o escasso. E nesse sentido, marcou-me muito." Pg. 22 (pgs.20-24)
Há outro equívoco: a austeridade não resolve nada. Temos de convocar os portugueses para mudarem de vida e terem melhor desempenho e não para reduzirem só a despesa. Podemos reduzir a despesa constantemente e não resolvemos o problema. Precisamos é de mais competitividade.
Em Maio de 2011, o Governo da altura assinou um atestado de óbito para a política que estava a seguir. Essa política levou-nos à ruína, tivemos de pedir ajuda internacional e, desta vez, não foi o agravamento do preço do petróleo, foi a incapacidade de nos adaptarmos aos desafios da época. Ao assinarmos essa certidão de óbito, devíamos ter procurado outro modelo e a mim não me ocorre outro que não seja encorajarmos o investimento produtivo. Até aí, estivemos a fazer investimentos que depois implicavam maior despesa. Os países que se desenvolveram foram aqueles que criaram investimento produtivo, que cria emprego permanente. É a primeira necessidade. O problema de Portugal, hoje, é o desemprego.
A necessidade aguça o engenho. Num período de austeridade, as pessoas começam a fazer o que podem e a agricultura tem respondido bem. O ensino também não foi feito para levar as pessoas a trabalharem com as mãos. As pessoas têm expectativas de ter um emprego num escritório, na banca, no sector público ou numa grande empresa. Isto não acontece nos outros países. Em Portugal, pode haver investimentos produtivos em todos os sectores.
Mas o país não tem capital neste momento.
Até se descapitalizou. Em 1973, a dívida pública era de 19% do PIB, partíamos de uma situação em que não havia endividamento e rapidamente subimos por ali acima. E tivemos ajudas da UE que não havia antes.
Esse é um problema da Democracia? Não consegue ter rigor nas contas?
Não é um problema da Democracia. Então a culpa é dos partidos e dos governos?
Também não é só. Precisamos de uma melhor visão sobre os desafios e as oportunidades. Um desafio é sempre uma ameaça, mas é também uma oportunidade. Devíamos ter mudado tão depressa quanto seria necessário para tirar partido das oportunidades. Os portugueses têm todo o direito de querer um nível de vida igual aos europeus. Não é um problema de recursos. Países sem recursos, como a Dinamarca, a Suíça ou o Luxemburgo, têm dos mais altos níveis de vida da Europa e também não é pela dimensão. Portanto, em Portugal, temos uma tolerância pela ineficácia, pelo desperdício que não pode ser boa."
terça-feira, 4 de março de 2014
"Professor Associado aposentado do Instituto Superior de Agronomia.
Experiência profissional, nacional e internacional, no domínio da Enologia.
Autor de vários livros e artigos científicos sobre vinhos e microbiologia de vinhos.
Co-inventor de várias patentes portuguesas e internacionais.
Doutorado em Microbiologia pelo Instituto Superior de Agronomia, UTL.
Equiparado a Mestre em Engenharia Biológica pela Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNL.
Licenciado pelo Instituto Superior de Agronomia, UTL. "
“Portugal deveria recorrer já ao pacote de ajuda internacional”, o título à entrevista feita a Teresa Ter-Minassian, consultora internacional (reformou-se em 2009, após 37 anos a trabalhar no FMI. Colabora com instituições como o Banco Mundial ou o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento), e que liderou a equipa que negociou a intervenção do FMI, em Portugal, no início dos anos 80, pelo jornalista Rui Peres Jorge, do Jornal de Negócios, na edição de 9 de Junho, nas páginas 26 e 27.
Dessa entrevista destaco:
“A economia nacional até poderá conseguir passar sem recorrer à EU e ao FMI, mas utilizar o financiamento oficial ajudaria a fazer o ajustamento necessário com menos dor.”
“As dinâmicas nas expectativas de mercado são muito negativas. É por isso que penso que é melhor montar um pacote coerente de financiamento oficial que diga aos mercados que o País não precisará de financiamento no curto prazo.”
“Portugal já provou que é capaz de fazer ajustamentos.”
“O problema na Europa é que alguns países, Portugal incluído, têm não só um problema orçamental, mas também um problema de poupança nacional demasiado baixa, que levou à acumulação de um grande volume de dívida externa, pública e privada. São esses países, na Europa emergente e do Sul, que agora estão mais vulneráveis e sob pressão.”
“Portugal enfrenta um problema de falta e poupança que tem de ser corrigido, o que passa por aumentos de produtividade e por moderação salarial. Por algum tempo, Portugal e outras economias poderão passar por um período de baixo crescimeno e de ambiente recessivo. Infelizmente, esse é o preço a pagar por ter acumulado demasiada dívida. Mas se a economia mundial não caminhar para outra queda, então Portugal deve conseguir encontrar nichos de mercado para promover uma recuperação puxada pelo exterior.”
“Não é apropriado que todos consolidem ao mesmo tempo e à mesma velocidade. A redução dos défices deve ser mais centrada nos países do Sul. Se a Alemanha se jutar, então o risco recessivo aumenta. Espero que os alemães se apercebam que se não derem o seu apoio na saída da crise, suportando a procura na Europa, então haverá problemas. Eles vão beneficiar muito da queda do euro e, por isso, no curto prazo, podem, e devem, ser relativamente expansionistas.”
“A Alemanha é uma economia muito madura e não podemos esperar que o consumo cresça ao ritmo de outras economias. Dito isto, acho que poderão tomar algumas medidas estruturais, nomeadamente em termos de liberalização do mercado de retalho, que ajudem a estimular a procura interna. Mas o consumo alemão nunca vai crescer 3% ou 4% ao ano. É importante – e a queda do euro ajuda – que se aposte em mercados fora da Europa.”