Artigo de João Silvestre, do Expresso, e Ilustração de Miguel Seixas / WHO, Caderno Economia, 19 Junho, páginas 8 e 9.
“….Alberto Alesina, professor em Harvard que apresentou um documento ao Ecofin onde deixava alguns conselhos aos ministros das Finanças europeus para conseguirem fazer contenções orçamentais expansionistas, fez as contas e os resultados não foram muito animadores.
Numa análise a 20 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), entre 1970 e 2007, publicado pelo National Bureau f Economic Research norte-americano em Setembro do ano passado em co-autoria com Sílvia Ardagna,identificou apenas 26 casos de consolidações expansionistas num total de 107. E só oito países o conseguiram fazer, entre os quais Portugal.
Uma taxa de sucesso de apenas 24%, que levanta algumas dúvidas sobre a capacidade dos países europeus conseguirem reduzir défices nesta fase de saída da crise sem caírem na armadilha da recessão novamente. Um cenário e double dip (recaída) em ilustrado pela história da Grande Depressão ou da longa crise japonesa da década de 90.
Portugal, neste aspecto, até é dos países com melhores resultados. Em oito consolidaçõe, conseguiu ser expansionista em três delas (1986, 1988 e 1995), o que lhe garante um sucesso em 38% dos casos e a quinta posição no conjunto de países analisados (ver gráfico com taxas de sucesso). Com uma metodologia diferente, António Afonso, num trabalho publicado pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais das Finanças em 2001, encontrou apenas um caso: 1986.”
Neste período de crise económico-financeira, no Mundo e na Europa, tornou-se perceptível na diminuição dos fluxos de turismo para a RAM, sendo consequente ao nível das taxas de ocupação da hotelaria, das receitas, do RevPar, da diminuição do nº de dormidas..
As notícias (agumas que podem ser consultadas no link) durante este ano tem confirmado essa tendência que parece estar a acentuar-se, uma vez que um novo dado foi introduzido, a intempérie de 20 de Fevereiro e, posterior a este, os efeitos do vulcão islandês.
As notícias relativamente a outros destinos também indicam quebras na chegada de turistas, os turistas optam pelos próprios países onde vivem, ou os de maior proximidade para as suas férias.
Se atendermos ao critério do nº de dormidas vendidas versus potencial total de dormidas (cálculo das dormidas), nos anos de 2000 a 2009 (dados DRE), verificamos que esse valor percentual varia entre os 40% e os 50%.
Esta é uma indicação de que o destino não conseguiu optimizar os seus recursos ao nível do potencial total de dormidas. Ainda que em determinados picos da procura, seja da sazonalidade, ou de determinados eventos, em que essa ocupação é superior ao valor médio anual da taxa de ocupação.
Em momento de crise, e num possível cenário de continua quebra da entrada de turistas os dados em análise tenderão a agravar-se e, outros cenários necessitam estar previstos, para implementação, quer como atenuante às circunstâncias do momento, e também num âmbito de gestão de crise.
A análise dos gráficos apresentados, sobre a Madeira, do ano 2009, da IMPACTUR (Indicadores de Monitorização e Previsão da Actividade Turística), revelam:
1 – Dormidas(-11,1%) e hóspedes (-9,5%) nos estabelecimentos hoteleiros;
2 – Na taxa de variação homóloga a 2009, a taxa de ocupação (-0,8 pontos percentuais) e estada média com tendência de redução do tempo;
3 – A distribuição relativa das dormidas nos estabelecimentos hoteleiros por país de residência habitual a indicação de que a Alemanha, Portugal e Reino Unido perfazem 61,1% e os restantes países 28,1%;
4 – A variação homóloga das dormidas nos estabelecimentos hoteleiros por país de residência verifica-se:
a) Os turistas da França, Países Baixos e Reino Unido com quebra, sendo maior a quebra deste último país, tendo mesmo sido inferior ao valor médio da variação homóloga. A Alemanha teve uma subida ligeira acima do valor médio. Portugal teve uma subida na variação.
b) A evolução anual dos passageiros desembarcados por tipo de voo, a variação homóloga verifica-se que a quebra é mais acentuada relativamente aos voos não regulares que os regulares;
c)Relativamente aos passageiros desembarcados por aeroporto / cidade origem do voo, 79% são dos aeroportos de Lisboa, Outros Aeroportos e Francisco Sá Carneiro;
d) Na distribuição relativa das dormidas por estabelecimento hoteleiro, 86% correspondem aos Hotéis e Hotéis-Apartamentos; sendo a restante percentagem distribuída pelas outras tipologias;
e) A sazonalidade nos anos 2006 a 2009, os picos da procura ocorrem nos meses de Março, Abril e Agosto. A queda é mais acentuada após o mês de Agosto.
f) O RevPar – Revenue per Available Room, em 2009, foi no valor de 31,8, sendo inferior ao ano de 2008 (37,8) e 2007 (35,8). Em ambos os anos o valor do RevPar foi superior ao valores registados no continente.
A procura no ano 2009 foi inferior aos restantes anos, excepto o meses de Maio a Julho que foi ligeiramente superior a 2008.
Também ocorreu que a quebra de turistas, a partir do mês de Setembro,de 2009, foi maior que nos anos anteriores.
Da análise feita percebe-se que a monitorização continua dos dados relevantes do turismo devem ser analisados e avaliados com mais frequência.
Posteriormente fazer a comparação tendo o conhecimento do saldo das obrigações e dos direitos das diferentes unidades hoteleiras na RAM, de modo a poder calendarizar a evolução da situação e ter uma previsão muito próxima de situações de limiar ou de ruptura. Isto permitirá que decisões possam ser feitas com a antecipação possível e também ao nível das estratégias.
Creio que a Gestão terá de ser muito “cirúrgica” afim de não agravar custos e minimizar a possível redução das margens de lucro e consequente manutenção e atractividade do negócio.
Parece ser também importante que o acompanhamento junto dos operadores turísticos, uma vez que os turistas para a RAM são em grande parte por eles canalizados, ter o feedback das suas reacções de negócio, ao nível da rentabilidade, satisfação ou insatisfação. Isto é importante para com a antecipação possível percebermos se o operador poderá deixar o destino ou estará a perder o seu interesse por ele. Isso poderá possibilitar introduzir alguma medidas de correcção e/ou desencadear acções promocionais junto de outros operadores e países emissores.
A avaliação com frequência dos níveis de satisfação dos clientes, também parece ser relevante, uma vez que em temos de crise, a insatisfação poderá vir a ocorrer com mais frequência, devido à possível hipersensibilidade dos turistas.
No artigo dos jornalistas, Isabel Resende e João Paulo Madeira, no semanário Sol (Confidencial pgs.2 e 3), de 28 Maio 2010,“Dificuldades na banca atingem PME”, é destacada a seguinte informação:
“Até Março, faliram 11.820 empresas de pequena e média dimensão e outras 40 mil poderão seguir o mesmo caminho. Há bancos a aplicar spreads de 10%.”
“Número
Em Abril de 2005, existiam emPortugal 479.616 PME.
Em Maio de 2010, o número está em 267.000
Emprego
Empregam 2,3 milhões de pessoas, contando com subcontratados a termo, estagiários e recibos verdes.
Representam 74,7% do emprego do país.
Facturação
O volume de negócios gerado pelas PME em 2009 terá sido de 110,7 mil milhões de euros, uma redução de 6% face a 2008.
Dimensão
Equivalente à média europeia: nove trabalhadores por empresa”
“20% com dívidas em atraso”
“Mais de 20% das empresas portuguesastêm dívidas em atraso aos bancos e, nas que pedem montantes até 20 mil Euros, essa percentagem sobe para 23%. Em 2007, antes da crise, 17% das sociedades com empréstimos mais baixos estavam em incumprimento.
Sem discriminar entre grandes grupos e PME, o Boletim Estatístico do Banco de Portugal (BdP) mostra que 57% das empresas pedem menos de 50 mil euros nas operações de crédito junto da banca. Apenas 6,5% contraem empréstimos superiores a um milhão de euros, segundo dados de Março.
Os sectores com mais crédito mal parado são os do comércio e de reparação de automóveis, em que 6,7% do total de crédito não é pago há mais de três meses. A seguir, surgem a construção e a indústria transformadora (6%) e a pesca (5,2%).
“Lisboa pede mais”
“Ainda de acordo com o BdP, as regiões com mais crédito mal parado no segmento empresarial são o Alentejo e a Região Autónoma da Madeira. A Grande Lisboa é a que absorve mais crédito bancário e tem o rácio de crédito vencido abaixo da média.
As dificuldades no mercado de crédito faze-se sentir no sector financeiro. Em Abril, os bancos portugueses foram buscar ao Banco Central Europeu um valor recorde de dinheiro: 17,7 mil milhões de euros. Este montante é três vezes superior ao que solicitado antes da falência do Lehman Brothers, em 2008.
Os últimos dados disponíveis, de final de 2009, mostram que o recurso ao BCE é cada vez mais importante no financiamento da banca portuguesa. Em Dezembro, 21% dos recursos captados pela banca vieram daquela instituição europeia quando um ano antes esta percentagem estava em 14%.”
Neste contexto fica a sugestão do artigo “PME votam “nim”” (link), das jornalistas, Alexandra de Noronha e Alexandra Machado, publicado no Jornal de Negócios, em 24/09/2009.
A edição do Diário de Notícias, de hoje, publica, no espaço Cartas do Leitor, a minha carta que reflecte sobre o momento que vivemos no Turismo. O link.
A survey of 980 hotels around the world, conducted from December 2009 through February 2010, found that discounting was the number-one tactic used to offset the effects of the Great Recession of 2008–2009. At the same time, most respondents who cut their prices agreed that discounting was not particularly successful in maintaining revenue levels. Discounting is one of four categories of tactics applied to offset the effects of the drop in corporate and leisure travel. The other three categories, in descending order, were marketing initiatives, obscuring room rates, and cutting costs. Hotels that sought to attract new market segments reported reasonably strong success. Those that used rate-obscuring tactics typically assembled value-added packages, offered a free night with purchase, or made heavier use of opaque distribution channels. About one-quarter of respondents reported cutting costs, usually by closing facilities, taking the opportunity for renovation, or reducing operating hours. Asked for their recommendations for the next recession, the respondents said that they would avoid discounting and focus instead on market initiatives. For 2010, in addition to marketing programs, the respondents said that they planned to use rate-obscuring approaches, with an emphasis on value-added packages.”
A Revista Exame (pgs. 66 – 70), de Maio, apresenta um artigo com o título em epigrafe da autoria de Jorge Nascimento Rodrigues.Destaco do artigo:
“Um estudo da investigadora brasileira Heloísa Marone, do Programa para o Desenvolvimento da Nações Unidas (PNUD), mostrava que, entre 2001 e 2007, a maior contribuição para o crescimento económico mundial foi dada pelos países de médio rendimento per capita, ou seja pelos países emergentes do antigo Terceiro Mundo. Esse grupo contribui com 55% contra 35% por parte dos países ricos.”E se centrarmos a análise entre 2005 e 2009, já com os efeitos desta grande crise em curso observamos que a contribuição para o crescimento mundial por parte dos países de médio rendimento per capita subiu para 67,5%!”, diz-nos Marone, que acrescenta este número impressionante: “Esta contribuição é hoje quase quatro vezes a que esses países deram no período de 1960 a1990.”
A segunda mudança de fundo é que a dinâmica de mobilização de capitais à escala mundial deslocou-se para a Ásia. A capitalização de mercado na Ásia passou de 16%, do total mundial em 2000, para 31%, em finais de 2009, passando à frente da Europa.” (Pg. 66)
“Retrato da Financeirização”
“- 72 biliões de dólares – Investidores (incluindo fundos de pensões)
- 11 biliões de dólares, 90% em veículos de securitização.
Sistema bancário “sombra” ou “paralelo” de intermediários entre os investidores e a banca.
- 241 biliões de dólares – Capital financeiro “real” (acções, obrigações públicas e privadas, depósitos).
683 biliões de dólares – Capital financeiro “virtual” de derivados over the counter (OTC, negociados directamente entre as partes).” (Pg. 68)
“o que os técnicos chamam de “profundidade financeira”, ou seja, o peso dos activos financeiros no produto interno bruto (PIB) de cada país, disparou de um modo “insano” entre 2002 e 2007, diz o investigador brasileiro João Gabriel Palma, da Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. E, provavelmente, para espanto de muitos, a economia mais “financeirizada”, antes do rebentar desta crise, nem era a norte-americana, revela num trabalho publicado no Cambridge Journal of Economics, do final do ano passado. Os campeões da referida “profundidade” são a Irlanda (900%), o Reino Unido e a França (700% cada um), a União Europeia (cerca de 600%) e o Japão (550%). O país que inventou a moda ficou-se pelos 450%.
Gabriel Palma junta mais uns dados para compor a imagem da evolução da financeirização:”As quatro componentes do stock de activos financeiros globais – incluindo participações, obrigações privadas e públicas e depósitos bancários – aumentaram nove vezes em termos reais entre 1980 e 2007. Deste modo, esse stock passou de 1,2 vezes o PIB mundial para 4,4. O mercado dos derivados over-the-counter, a que Warren Buffet uma vez chamou “armas financeiras de destruição maciça”, aumentou 7,5 vezes nos últimos dez anos, ou seja passou de 2,4 vezes o PIB mundial para 11. O envelope financeiro do mundo, incluindo activos reais tradicionais e instrumentos financeiros novos, é 15 vezes o PIB mundial.Percebe-se o adjectivo “insano” usado pelo investigador brasileiro”( pg. 68)